O Componente Plus no Cuidar II

No texto anterior, começamos a tratar do componente plus. Pensamos na importância do toque como estímulo para o desenvolvimento dos pequenos; na ausência ou presença do amor na relação parental, o quanto ter esse sentimento pode muitas vezes não ser suficiente, pois  é preciso saber externá-lo; e também o quanto é preciso deixar o egoísmo de lado para poder cumprir adequadamente nosso novo papel (de pai ou mãe).

No texto deste mês, refletiremos um pouco sobre as maneiras de externar, demonstrar esse amor através do carinho!

Sabemos que a escassez ou o excesso de qualquer coisa na vida gera algum tipo de consequência que nos desequilibra: comida de menos pode provocar desnutrição pela falta do que é essencial, comida demais pode provocar obesidade; medo de menos nos coloca constantemente em risco, medo em excesso acaba paralisando então, a saída é sempre dosar para que tentemos atingir o equilíbrio. Na relação com os filhos é a mesma coisa. Quando externamos carinho em excesso, não os preparamos para a vida e quando não damos o suficiente, fazemos deles seres carentes que podem se desequilibrar emocionalmente e que muitas vezes acabam não amadurecendo emocionalmente.

Então, que atitudes adotadas podem fazer com que essa mistura “azede”? Quando pensamos no excesso de carinho, vamos nos referir aqui à posturas que privilegiem a permissividade, à superproteção, sobre o uso inadequado do tom de voz e também o uso excessivo dos elogios.

No que se refere à permissividade, a falta do não (do limite) vai prejudicar o entendimento da criança de que neste mundo em que vivemos somos seres em relação com o outro, logo, o que fazemos ou deixamos de fazer não só nos afeta como também a quem está ao nosso redor. As relações, principalmente as próximas, acabam muitas vezes perdendo qualidade ou se deteriorando porque algumas pessoas não conseguem enxergar que não é possível ter a prevalência de sua vontade o tempo todo! E com as crianças também é assim! Aliás, essa pessoa que hoje age como se fosse o centro do universo um dia foi criança e fica a pergunta: Como toda essa questão foi construída com ela? Ninguém é o que é, quando adulto, à toa; há uma história de vida por trás; e essa história de vida dos futuros adultos é que precisamos cuidar! Importante ressaltar para os pais que o NÃO, jamais fará com que uma criança os ame menos. Todas elas para crescerem saudáveis precisam de limite (como já conversamos em outros textos) ;e essa é uma forma de dar esse plus carinho sobre o qual estamos conversando!

Também não podemos deixar de lembrar que resolver tudo pela criança e não deixar que ela vá criando suas próprias ferramentas para solucionar pequenas questões – ao seu alcance dentro de sua faixa etária – acaba por não dar oportunidade de que ela crie a autonomia necessária para enfrentar a vida. É preciso não fazer uma tempestade num copo d’água por qualquer coisa. Não super valorizar ou super dimensionar questões infantis que fazem parte do crescimento e desse  aprendizado de se relacionar com o outro. Temos que balizar a necessidade de intervenção porque também é preciso que a criança vá criando mecanismos para expor sua vontade, seu pensamento perante o outro sem “intérpretes”. Precisamos ficar atentos porque nem tudo é bulliyng – temos que ter cuidado com a tendência a fazer modismos com coisas tão sérias como é o caso do bulliyng. Querer burlar ou mudar as regras só para que seu filho seja “atendido” também não é um bom exemplo a dar.

Ações como essas acabam caracterizando excesso no plus carinho e uma superproteção que não será nada saudável! Com respeito ao tom de voz, ele é um item que para todos está muito ligado ao carinho. Mas precisamos ter cuidado porque ser “brando” o tempo todo pode não ser o ideal! Há pais que nunca modificam o seu tom, sempre linear, “manso”, sem as nuances necessárias para que a criança entenda a mudança, a diferença entre um momento e outro afinal, não há como usar o mesmo tom de voz quando dizemos eu te amo e quando estamos em presença de uma birra. É preciso que o tom acompanhe o conteúdo da fala. Não se pode pedir implorando – com tom de súplica – para que o filho obedeça. É preciso que a criança veja o genitor como uma figura de autoridade, para isso ele tem que se portar como, e o tom de voz ajuda nisso.

Outro ponto que precisa ser bem entendido para não gerar dúvidas ou má interpretação é a questão dos elogios. Se estamos tentando falar dos excessos do plus carinho que podem fazer com que” desande” a tarefa de auxiliar o desenvolvimento da criança, falar do excesso de elogio é necessário. É claro que elogiar, dar incentivo para suas capacidades é essencial para um desenvolvimento saudável; isso vai fazendo com que a criança tenha autoconfiança e se sinta segura nos seus primeiros “passos”, mas quando esses elogios acabam acontecendo em excesso, eles podem servir como um termômetro não fiel. Ora, não somos perfeitos o tempo todo, nem sempre fazemos o nosso melhor e as crianças não são diferentes. Uma dose de realidade é necessária a todas senão crescem despreparadas para as críticas, crescem achando que não precisam se autoavaliar, que tudo o que fazem é sempre bom, sempre o melhor, perfeito. O problema é que a vida vai se encarregando de mostrar o contrário e se algumas crianças passam batidas por esses sinais que a vida dá e continuam se vendo “super” (até quando não estão sendo), outras podem acabar sucumbindo por não saberem lidar com as frustrações, críticas e limitações. Há situações em que a crítica precisa existir – aquela que vem pra somar, que praticamente soa como uma orientação. Pode ser num dever onde a criança precise se esmeirar mais, quando a letra ou o capricho podem não estar sendo suficientes nem condizentes com a capacidade dela, quando suas produções não estão de acordo com seu potencial etc. Quando um desses exemplos acontece, podemos trazer para ela que aquilo não está bom e que pode melhorar se assim se esforçar. Isso não traumatiza. Mandar apagar algo que foi feito inadequadamente e pedir que refaça demonstra avaliação da realidade e nada disso é fator traumatizante. A naturalidade do adulto leva a criança a encarar essas autoavaliações também de forma  natural.

Mas com tanta complexidade, às vezes dá vontade de desistir, não é? Só que precisamos problematizar as questões para que justamente façamos nossa autocrítica, para que tenhamos a oportunidade de rever posturas que possam prejudicar o crescimento dos filhos!

E para que tenhamos tempo de digerir tantos aspectos sobre o excesso do plus carinho, vamos  deixar a problemática de sua falta para o nosso próximo texto!

Até o mês que vem

Um forte abraço!

Ane Dantas Sartori

CRP 05/39333