O Componente Plus no Cuidar III

Como dito no texto anterior (O componente plus no cuidar –parte II), neste mês iremos pensar um pouco a respeito da falta do plus carinho e suas possíveis consequências na vida das crianças no momento atual futuro. Já vimos que quando falamos em carinho, não estamos nos referindo apenas ao afago, mas a toda uma gama de maneiras diferentes de demonstrar o amor que sentimos. Por isso, o conteúdo da fala, o limite, a compreensão, estimulação ao crescimento físico e emocional etc. podem ser entendidos como carinho. E se estamos aqui para refletirmos acerca da sua falta, podemos iniciar comentando sobre as exigências!

Vimos anteriormente que não cobrar pequenas responsabilidades e fazer tudo pela criança,não ajuda a que cresça emocionalmente e seja independente e segura.Mas quando as exigências são excessivas, as consequências são maléficas. Imaginem o que é, para qualquer pessoa, ser cobrada daquilo que ainda não é capaz de realizar? Agora pensem isso em relação às crianças. É cruel, não é mesmo?! Mas acontece! Quando crianças assumem a responsabilidade de gerir seu dia a dia, sem um adulto fazendo o monitoramento de olhar a agenda escolar, fiscalizar os estudos,higiene, atitudes e alimentação, podemos sim dizer que estamos diante de negligência parental já que dão excesso de autonomia a quem ainda não é capaz de definir ou decidir essas questões tão complexas. Essa falta de monitoramento acaba por deixar na criança a impressão de ser pouco importante já que os pais não se ocupam de cuidá-la, trazendo repercussões na autoestima e na sensação de segurança. Quando dúvidas surgem em relação ao que é passível de ser cobrado de uma criança em determinada faixa etária, uma dica é consultar o pediatra ou mesmo uma psicóloga infantil.

Existe outro nível de exigência excessiva, mais voltada para a parte dos estudos, que se refere à produtividade. São pais exigindo de seus filhos mega produções, que estão acima daquilo que é esperado para sua faixa etária, para seu nível de maturação.

Ex: Pais da Ed. Infantil esperando que o filho já leia e escreva nessa etapa escolar; pais do Ens. Fundamental querendo que a escrita do filho esteja quase à nível de Ensino Médio e por aí vai…

É preciso ressaltar uma vez mais que o desenvolvimento não se dá em saltos nem de uma hora pra outra; tudo é gradual. Qualquer dúvida com relação ao que esperar das séries escolares, a instituição estará apta a esclarecer então, não hesitem em procurá-la.

Outra maneira de vermos a falta do plus carinho é quando os pais são muito autoritários, não dando espaço para que os filhos tenham opinião, vontades, gostos, que expressem sentimentos, emoções etc. Filhos não são objetos; sentem e pensam! E serem olhados como alguém não passível de ser levado em conta é frustrante; faz com que se sintam desrespeitados tendo afetada a autoestima, trazendo prejuízos que podem estar ligados à dificuldade em tomar decisões, em identificar em si seus próprios posicionamentos afinal, dentro de um lar autoritário não são ensinados a fazer escolhas muitas vezes não são ensinados a “pensar”. Alguns crescem revoltados e acabam apresentando problemas de comportamento. As crianças precisam ir vivenciando as situações ao longo do seu desenvolvimento para que possam ir aprendendo a serem adultos. Dar essas oportunidades é ajudá-las a pensar, a questionar, refletir, decidir errar, ressignificar. Uma educação restritiva em excesso não é boa, pois não dá essas oportunidades.

Com relação ao afago, ele é parte do plus carinho e sua falta também cria consequências negativas. Mas ele não pode ser entendido apenas como algo físico; palavras também podem fazer parte! Sabemos que vamos nos construindo de acordo com as experiências que vivenciamos e dessa forma, o olhar que o outro tem para mim (não o olhar físico, mas o olhar no sentido do que o outro acha de mim) vai ajudar a me construir, a formar quem sou eu e como me vejo. Com isso, podemos imaginar as repercussões negativas que palavras grosseiras, depreciativas e o excesso de críticas podem causar! Muitos pais acham que as outras pessoas (fora do núcleo familiar) não podem criticar,ralhar, dar limite para seus filhos, mas quando se trata deles próprios, acham que tem o direito de dizer o que quiserem como se o pátrio poder lhes desse pleno direito de humilhar as crianças. É muito importante que pais se observem, se policiem e procurem medir suas palavras, pois as marcas que produzem ficam e afetam a autoestima e segurança interna das crianças. Como crescer confiante se escutam de seus pais que: não fazem nada certo, que puxaram o sangue ruim do pai (ou mãe), que só vieram ao mundo pra atrapalhar a vida dos pais, que são burras, gordas e tantos outros adjetivos negativos?! Nessa altura da leitura, alguns dirão que as crianças podem acabar ouvindo esses adjetivos de outras pessoas como colegas, vizinhos, funcionários da casa, professores etc., mas não podemos esquecer que se já são devastadores quando vindos dessas pessoas, imaginem então, vindos daqueles que elas mais amam?! Pais afinal são uma referência poderosa para os filhos. Aquilo que eles pensam de seus pequenos refletirá com certeza na imagem que eles terão de si mesmos por isso, cuidemos de nossas próprias frustrações e dificuldades para não “descontarmos” em quem não tem nada a ver com isso! Por mais que nossos problemas advenham do fato de sermos pais (excesso de responsabilidades, questões financeiras, falta de liberdade etc.), as crianças não podem pagar por nossas escolhas.

Acho que para finalizar, é importante ressaltar que as crianças que tiveram falta do plus carinho podem acabar criando, no futuro, uma casca em torno de si na tentativa de se protegerem do “mundo hostil” ao qual foram apresentadas através da relação que tiveram com seus pais visto que são eles que “apresentam” o “mundo” às crianças. Quando adultos, numa eterna tentativa de proteção, alguns acabam “não valorizando” esse expressar afeto, pois aprenderam que esperar isso das pessoas é frustrante já que ao esperarem de seus pais não o obtiveram e se decepcionaram! Outros acabam se tornando “vampiros”, buscando suprir essa necessidade básica de carinho que nunca tiveram. Deixam de crescer emocionalmente e se colocam perante a vida e as relações interpessoais como se tivessem 1 ano de idade, ainda achando que o mundo tem que girar em torno deles; tentando receber aquilo que no tempo “certo” não receberam.

Como foi possível vermos, as consequências no futuro de crianças com falta do plus carinho podem ser comprometedoras! Então, arregacemos as mangas, façamos uma análise de nossas condutas até aqui e mudemos aquilo que pode estar criando uma situação como essa em nossa tarefa de pais, pois ainda é tempo de recomeçar!

Até o próximo mês onde falaremos do plus atenção, nosso último texto da série.

Um forte abraço!