O Limite Parte I

No mês passado, começamos a falar um pouco da necessidade que toda criança tem de ter limite. Se vivemos em sociedade, precisamos de regras que irão mediar esse convívio. Portanto, para respeitar e conviver bem em grupo é fundamental termos trabalhada em nós essa questão.

E onde os pais entram nisso tudo?! São eles que vão introduzindo as crianças no mundo das regras que nossa sociedade escolheu para harmonizar os conflitos de interesses de tantas pessoas.

Como num primeiro momento a relação dos pequenos se concentra fortemente em família e por ser esta a base para o desenvolvimento deles, é de extrema importância que essas figuras parentais possam realizar nesse micro espaço (núcleo familiar) o que existe no macro espaço. Por isto, já falamos algumas vezes da importância de construir entre os pais as regras a serem adotadas em casa e apresentá-las às crianças, colaborando para que todas possam ser cumpridas!

Hoje, vemos uma sociedade que valoriza o individual e nessa perspectiva, a chance de termos problemas de convivência é muito grande. O individualista não se permite pensar no outro; apenas seu desejo conta; como se diz por aí “É aquele que só olha para o seu umbigo”. E a criança, quando bem pequena, tende a pensar dessa forma e cabe aos adultos irem sensibilizando seu olhar para que possa aprender a levar em conta o outro com quem convive.

Introduzir essa noção de respeito acaba deixando a criança mais educada, mais colaboradora, menos agressiva, pois muitas vezes aquilo que as pessoas enxergam como agressividade pode vir da falta de limite. É aquela criança que bate em todo mundo porque numa disputa por um brinquedo não consegue abrir mão dele para o colega brincar, que exige que um colega abra mão do brinquedo só porque ela quer imediatamente brincar com aquele objeto. É aquela criança que ao escutar um não , bate, chuta, cospe ou xinga o adulto. Aquela que acaba gerando um monte de conflitos e muitas vezes fica “meio que” excluída do grupo de colegas porque simplesmente não consegue se entender com eles, pois se as coisas não são como ela quer, a brincadeira perde a graça e se recusa a continuar brincando.

Crianças assim acabam passando por maus bocados nessa interação com outras crianças porque simplesmente não lidam bem com a frustração!! E saber lidar com a frustração é saber aceitar os nãos que surgem – e que podem ser dados por pessoas ou mesmo pela própria vida. Mas o que será que faz com que a criança não suporte ser “contrariada” nas suas vontades? Muitas vezes isso pode estar ligado ao mau uso do não pelos pais.

É muito legal conseguirmos algo que desejamos, mas tão sábio quanto saber ganhar é saber perder. E para isso, os pais precisam dar uma mãozinha, lembrando sempre que não, não traumatiza ninguém, pelo contrário, é ele que vai ajudar o trabalho com o limite. Só é necessário saber como se utilizar dele para conquistar esse objetivo. Esse saber se utilizar do não, passa pela sustentação que os pais conseguirão dar para cada vez que o pronunciarem!

Costumo sempre fazer a distinção dos 2 tipos de não na educação dos filhos:

não sustentável

não fraco

não sustentável é aquele que é dado por um motivo plausível e que em nenhuma hipótese será mudado, não importando birras; permanecerá prevalecendo. Um exemplo é a criança querer brincar com fogo ou mesmo subir numa janela; os pais não voltarão atrás do não dado sob nenhuma hipótese.

não fraco é aquele que é dado por um motivo, que pode até ser legítimo, mas que nem o pai nem a mãe têm força para mantê-lo mediante a insistência da criança ou mesmo uma grande birra que possa fazer.  Este não é muito “perigoso” porque ele “vicia” a criança a insistir sempre, na expectativa de que conseguirá reverter a posição dos pais; que é só insistir para que esse não se transforme em um sim!

Cada não dado é preciso estar baseado em algo e se isso que o está sustentando não é forte o bastante, os pais acabam cedendo; e ao fazerem isso, derrubam sua autoridade; é um tiro no próprio pé!

Quando mães e pais se deparam com situações assim, onde sabem que há espaço para modificação de sua opinião, o melhor é substituírem o não por uma negociação, pelo diálogo. Um exemplo pode ser o horário de subir do parquinho do prédio.

Se a criança pede para ficar um pouco mais no parque e não há nenhum problema nisso – a família não vai sair, não está na hora do jantar, nem está na hora de dormir – dialogar com a criança e dizer que é possível que ela fique apenas mais uma certa quantidade de tempo, pois depois já estará próximo ao horário do jantar e ela terá que subir para tomar banho e comer, seria a melhor saída; muito melhor do que iniciar a conversa com um não e depois de sua insistência acabar tudo com um sim.

É importante saber que no início de todo processo, é necessário um tempo para que a criança possa compreender como tudo funciona, e com a introdução do não, não é diferente. Num primeiro momento, ela irá testar os pais, tentando insistir para ver se consegue que as coisas sejam de acordo com a sua vontade! Mas se mães e pais fizerem o uso adequado do não sustentável e substituírem adequadamente o não fraco pela negociação, pelo diálogo, com o tempo ela aprenderá – como aprende tudo! – que quando lhe for dado um não, este será imutável e, portanto insistir e fazer birras não a fará ganhar o que esteja querendo naquele momento.

Portanto a maior insistência deve ser dos pais, eles é que precisam ser insistentes em suas convicções e não se deixarem manipular por choros, manhas e birras porque sabem o que é bom para os filhos e isso é o que acalenta o coração, a certeza de estarem fazendo o melhor para as crianças. Não é momento de pena, pois os filhos nãos são dignos dela; possuem pais que os amam e que querem o seu bem e por isso mesmo, esses mesmos pais devem saber dar o não necessário para que eles possam crescer saudáveis.

No próximo mês daremos continuidade ao tema limite e falaremos um pouco do quanto a escola pode ser um espaço colaborador para esse aprendizado.

Um forte abraço

ANE DANTAS SARTORI

CRP 05/39333