O Limite Parte II

Este mês, vamos refletir a respeito do espaço escolar e sua relação com o limite; o quanto esse local pode colaborar para que o aprendizado sobre as relações sociais e regras se intensifique.

A escola é normalmente o 1º ambiente social, fora da família, fora do afeto parental, no qual a criança vai interagir. Esse espaço, por ser coletivo, precisa ter um foco maior no todo, com isso, muitas regras devem ser estabelecidas para garantir que todos possam aproveitá-lo. Assim, em alguma instância, podemos pensar que, a escola não é o lugar do querer, mas sim dos desejos não satisfeitos e por este motivo, aquele que não está acostumado com o não (com as frustrações) tende a encontrar mais dificuldade em se adaptar à escola e a diversos ambientes coletivos.

Vale lembrar que muitas vezes os pais minimizam a dificuldade de alguns pequenos em lidarem com a frustração relacionando-a com a idade e justificando que “Ah, ele é tão pequenininho… Quando crescer já vai receber tanto não…” Mas é preciso lembrar que a gente aprende muito vivenciando as situações; se as crianças não tiverem contato com a frustração, como encontrarão ferramentas para lidar com as emoções que ela desperta?

Enquanto elas são pequenas, talvez uma birra possa parecer inofensiva, mas será que quando crescerem e não souberem lidar, por exemplo, com o fim de um relacionamento amoroso e ficarem perseguindo a(o) ex-namorada(o) também vamos achar bonitinho?! É preciso lembrar que adultos problemáticos também foram crianças um dia e muitas das questões atuais começaram lá  atrás, com situações aparentemente “inofensivas”, mas que dão uma ideia errônea para a criança de que é o mundo que gira em torno dela e todos são seus súditos e estão para atenderem suas vontades e necessidades!

Precisamos pensar no futuro. Educar é um trabalho que colhemos os frutos hoje, mas não somente hoje, no futuro continuaremos colhendo se a semente que plantamos tiver sido cuidada adequadamente. Não podemos esquecer, e vale repetir uma vez mais, que a criança aprende muito pelo exemplo, e pais precisam estar atentos aos movimentos que fazem com relação às regras da escola para que seu exemplo não sirva de modelo equivocado para a criança. Todos os locais coletivos possuem regras e na escola não é diferente, como já vimos. Elas são divulgadas através de reuniões, circulares, contrato etc. E é importante que as famílias tentem se enquadrar nesse conjunto de regras, pois são elas que uniformizarão os direitos e deveres dos alunos e darão rotina, disciplina e justiça, pois quando as regras estão sempre se adaptando às individualidades indiscriminadamente, as injustiças começam a aparecer. Para que se entenda o que este parágrafo quer nos fazer refletir, é só pensarmos no horário de entrada. Já imaginaram como seria se este fosse determinado por regras individuais? Aquele que gosta de almoçar mais tarde acabaria chegando depois do horário; em compensação aquele que os pais precisam sair para o trabalho chegaria antes da hora; e as justificativas seriam muitas e diferentes para cada horário “alternativo” em que os alunos chegassem. Mas já pensaram como se daria a dinâmica da aula se a cada instante outro aluno adentrasse a sala? Seria inviável! Como este, vários outros exemplos poderiam aparecer aqui – uso do uniforme, datas de prova, prazos etc. É claro que determinadas situações merecem uma conversa com a equipe dirigente da escola, que deve analisar as solicitações, pois os estabelecimentos de ensino não podem se “fechar”; precisam escutar o seu grupo (alunos, responsáveis), mas essa abertura não significa obrigatoriedade de acatar aquilo que está sendo pleiteado porque senão voltaríamos ao ponto central desse texto – As escolas, por serem um ambiente coletivo, não podem apenas ver o individual, pois a coletividade predomina nesses espaços!

A família precisa entender que há uma medida para que as escolas acatem solicitações ou atitudes fora das regras estabelecidas: o não afetar o direito de todo o grupo. Aqui entram também os preceitos eleitos pela escola para nortearem seu trabalho e bom funcionamento, afinal toda escola possui um norte, bases que vão dar direcionamento para a construção de suas regras e condutas. Trazendo seu filho no horário, uniformizado, cumprindo os combinados feitos, ou seja, seguindo as regras, os pais estarão passando à criança, como devemos lidar com limites e que é de extrema importância para o convívio em grupo (com justiça, regularidade e uniformidade) seguir o conjunto de regras estabelecido para o bom andamento das atividades.

O legado que os pais podem deixar para os filhos, através da educação com limite, é por demais valoroso para o futuro não só deles individualmente, mas de toda a sociedade, já que por sermos seres em relação com o outro, somos afetados por todos, por todas as atitudes daqueles que estão ao nosso redor.

No mês que vem abordaremos mais algumas questões dentro do tema limite, fechando assim nossos textos sobre o assunto.

Até o próximo!

Um forte abraço

ANE DANTAS SARTORI

CRP 05/39333