Outros Desafios

Pensando na constituição familiar, muitos são os que se desesperam frente a problemas enfrentados em seu papel de casal. Como todas as pessoas, pais vão se desentender, não só em seus papéis de pais, mas também como marido e mulher. Não devemos esperar que a família seja perfeita, que os pais nunca se desentendam, nunca se chateiem entre si; isso seria trabalhar com idealizações e pensar dessa forma também não é saudável porque não somos perfeitos, somos como se diz “de carne e osso”! Mas discutir, discordar, se chatear, não significa permitir que esses desentendimentos afetem a vida dos filhos de maneira a criar dificuldades em seu desenvolvimento.

É muito ruim para qualquer criança viver num ambiente onde os pais vivam de “cara amarrada” sem que um dirija a palavra ao outro, ou se tratem com hostilidade. Mesmo quando as discussões são entre quatro paredes, quem é que não percebe aquele “clima no ar” após uma briga? As crianças são muito atentas, percebendo muito bem aquilo que não é dito com palavras, mas com o olhar, com a nossa postura, ânimo… E isso de forma prolongada ou frequente poderá refletir em seu comportamento. A criança, apesar de perceber que algo não vai bem, que existe “algo estranho no ar”, ela não tem condições de compreender os pormenores dessa relação marido-mulher e acaba sentindo-se insegura, podendo mostrar reações como medo, agressividade, dificuldade com o sono, dificuldade de concentração etc.

Muitas vezes, essas situações conflitantes entre os cônjuges acabam por dissolver essa relação amorosa e a separação do casal é a solução. Dentro dessa nova realidade, é importante entender que a relação entre pais e filhos não deve se deteriorar pelo afastamento cotidiano do lar por um dos genitores. É essencial dar continuidade nessa relação, com suas novas configurações – principalmente espacial. Vale ressaltar que a responsabilidade com os filhos continua, inclusive legalmente, mas a responsabilidade emocional, tão subjetiva para ser cobrada por um juiz, eu diria que é a mais importante nessas situações.

Nas separações, alguns ex-casais podem estar tão chateados, irados mesmo um com o outro, que apelam para os insultos; mas com o convívio eliminado utilizam outra via, uma espécie de “telefone sem fio”, para os seus recados carregados de mágoa, raiva e ofensas: são os filhos, que acabam servindo de “leva e traz” nessa relação de ódio entre os adultos. É cruel isso que se faz com as crianças, ou mesmo adolescentes, pois os filhos tem uma relação com os pais totalmente diferente da de homem e mulher. Pais separados ou não, precisam entender que criticar negativamente, menosprezar e denegrir a imagem do outro responsável é uma atitude mesquinha, prejudicial a quem deveríamos querer preservar a qualquer custo – os filhos!

Muitas vezes as críticas podem até ser verdadeiras do ponto de vista dos fatos, mas nessas horas a pior atitude é querer fazer justiça com a própria língua. Quem sofrerá realmente não é aquele que é o alvo das críticas, mas aqueles que são obrigados a ouvir aquelas palavras tão ofensivas a respeito de alguém tão importante e tão significativo na vida deles. Não há necessidade de frases como:

“Você não pode fazer natação porque seu pai (mãe) não paga. Agora só quer saber da

“Seu pai (mãe) não te dá nada, né? Tudo eu que tenho que comprar!!” outra família que arrumou. Assim é fácil botar filho no mundo.”

Por vezes, somos nós que estamos levantando questões que para as crianças passaria despercebida e com isso criando “caraminholas na cabeça” delas. Alguns responsáveis se questionam se não é injusto deixar as crianças pensarem que o outro é bonzinho quando não é de verdade, mas há outra pergunta a responder “É justo com as crianças retirar a possibilidade de que criem uma relação de afeto e carinho com esse responsável por questões que ainda não fazem parte do mundo delas?” A vida financeira faz parte do mundo dos adultos! Elas não tem como resolver. E esses tipo de comentário só cria angústias e por vezes sentimentos de culpa porque alguns discursos parecem inclusive colocar as crianças como um peso na vida dos pais. Os cônjuges que se sentem injustiçados devem pensar em primeiro lugar que estão investindo – ainda que com toda a dificuldade – em seus filhos (seu bem maior) e há situações em que isso tem que prevalecer. Injustiças são muitas vezes corrigidas com o tempo…

Em situações em que os problemas oriundos da separação estejam difíceis de serem “digeridos”, é bom procurar um auxílio externo de um psicólogo para saber como lidar melhor com esse turbilhão de emoções; para que as críticas já mencionadas, não ocorram; para que o ódio não fale mais alto do que o bom senso. É preciso estar atento para não usar as crianças para atingir, ferir e se vingar daquele(a) que agora é “odiado(a)”. É preciso lembrar que um dia foi alguém amado e escolhido para compartilhar a vida e criação dos filhos. Então, por que as crianças precisam “pagar” pelas escolhas dos pais? Denegrir a imagem do outro responsável é uma atitude que pode fazer com que aquele que é criticado perca a credibilidade perante os filhos; crianças precisam admirar seus pais.

Há situações em que o outro cônjuge refaz sua vida sentimental e inicia um novo relacionamento amoroso. Nessas horas é importante haver equilíbrio por parte do outro – que muitas vezes ainda não se recuperou da separação e nutre algum sentimento de amor ou mesmo esperança de um retorno. – Não deixar que a curiosidade fale mais alto para que não caia na tentação de transformar os filhos em verdadeiros espiões da vida alheia é importantíssimo. Os comentário sobre algo que fizeram no fim de semana em que foram passear com o outro responsável devem ser bem vindos na medida em que partam das crianças, até para que seja algo natural falar sobre esses dois “lados” da vida deles; mas não é natural nem benéfico que se “interrogue” as crianças na intenção de captar todas as informações necessárias para satisfazer curiosidades pessoais.

Outro ponto importante é sempre levar em consideração a criança como ser que sente e pensa! Muitos pais acham que porque a criança é muito pequena nada precisa ser dito, pois “criança não entende nada mesmo.” Mas não é bem assim! O mínimo deve ser explicado. Dizer que os pais já não se gostam mais como namorados, que por isso não morarão mais juntos, mas que continuarão gostando dos filhos e vendo-os sempre, são formas de explicar para essa criança o que irá acontecer. Claro que outras palavras podem ser usadas, mas lembrar que, como na moda, menos é mais, é uma boa dica! Os detalhes não são necessários! O importante nessa conversa é deixar a criança ciente do que vai acontecer; com isso diminui a insegurança e a ansiedade. Sofrer a ausência diária, o não passear todos juntos, a mudança daquele dia a dia como era antes, realmente acontecerá, mas nada que o tempo não cure; é um luto que precisa ser vivenciado; é também uma adaptação e como toda adaptação, vai ter aquele que passará por ela de forma leve e outros que vivenciarão essa etapa de forma mais sentida. É válido estar atento e no caso de reações mais exacerbadas, consultar um especialista pode ajudar a atravessar essa fase. O importante é lembrar que criança entende as coisas, do seu jeitinho, mas entende e que criança, mesmo sendo criança sofre. Então é de extrema importância que possamos abrir espaço para que ela fale de seus sentimentos e pensamentos! Não só nessas situações de separação, mas sempre! É um canal muito valioso, que na adolescência então, se fará muito útil.

Os desafios são muitos, não é mesmo?! Mas “arregaçando as mangas e colocando a mão na massa” vamos aprendendo a cada dia como construir uma vida emocional mais saudável para a garotada!

Um forte abraço e até o próximo mês!!

Ane Dantas Sartori Psicóloga – CRP 05/39333anedantas@colegiosantabeatriz.com.br