Sexualidade Parte I

Iniciando mais um ano em nosso Espaço Psi, começamos neste mês de março uma série que estará nos ajudando a refletir acerca da sexualidade na vida infantil. Tentarei abordar dentro desse tema tão amplo, alguns pontos que podem ajudar nosso dia a dia com as crianças; que ressaltem a necessidade de que estejamos atentos para sinais perigosos e que saibamos lidar com o que é normal nessa fase.

O primeiro ponto no qual podemos nos deter é o da curiosidade das crianças pelo corpo do outro e pelo seu próprio corpo.

Com a retirada da fralda, o contato dos pequenos com o que antes era “tão escondido”, faz com que surja neles uma vontade de olhar e tocar seus órgãos genitais. Começam a perceber não apenas a sua existência pela questão visual, mas também por aquilo que experimentam ao se darem conta das sensações, agora mais evidentes, que o corpo dá para a vontade do xixi e do cocô e a própria sensação ao expelir esses excrementos.

Após essa descoberta, pode surgir também a curiosidade de certificar se essas mesmas partes do corpo estão presentes em seus coleguinhas. E quando iniciam a diferenciação entre meninos e meninas, é possível que essa curiosidade faça com que os surpreendamos comparando-se com os amigos, abaixando o short, olhando ou mesmo tocando a si e aos colegas; tudo em função dessa curiosidade. Por isso, é preciso que tenhamos a sensibilidade para entender essa fase e que ao invés de repreendê-los com raiva, medo ou até vergonha, saibamos orientá-los; sem chamar demasiada atenção para esta situação tão inocente.

É natural que as crianças, nesse ato de tocar seu próprio corpo – movidas pelo interesse de desvendar todas as novidades – acabem descobrindo sensações de prazer. Estas áreas, extremamente sensíveis, geram uma sensação de bem-estar quando manipuladas e isso, por vezes, leva os pequenos a repetir esse toque com a intenção de experimentar de novo o prazer obtido anteriormente. Mas vale ressaltar que o significado desse tipo de masturbação difere do que representa a masturbação para adolescentes e adultos porque nessas fases posteriores, o prazer sentido está de alguma forma direcionado a um outro, a uma relação com um parceiro – já temos a fantasia entrando em cena – enquanto na criança pequena, o que entra é apenas a questão sensorial.

Algo importante e preocupante ao mesmo tempo, é como lidar com essas situações quando estão acontecendo diante dos nossos olhos. Nunca devemos esquecer que nossa postura será determinante para que a criança saia delas sem nenhum tipo de bloqueio ou tabu. Vale lembrar também que essas situações serão oportunidades para a criança receber orientações que a farão compreender mais um aspecto da cultura na qual está inserida.

Em função do público alvo de nosso colégio ser as crianças e não adolescentes, nossas reflexões aqui serão sempre voltadas para essa fase do desenvolvimento. E nessa etapa, nossa postura frente a situação da masturbação, precisa ser delicada para que não criemos nenhuma ideia de que tocar-se ou obter prazer através de seu próprio corpo é algo “sujo”, vergonhoso ou mesmo proibido. Sabemos que muito do que somos na vida adulta começou a ser construído desde nossa estada no ventre materno. Em razão disso, todo o cuidado é pouco ao tratar temas que farão parte da nossa vida para sempre. Por isso, é de extrema importância que não haja repressão e sim orientação quando nos depararmos com a questão da masturbação na infância!

Muitas vezes a criança procura essa sensação de prazer por estar relaxada, como nos momentos em que está vendo tv (um filme, um desenho etc), outras vezes pode ser por falta de uma ocupação – está com o tempo ocioso, sem nada que lhe chame a atenção. Por vezes, esse tocar-se ocorre em momentos que julgamos não apropriados – perante pessoas da casa ou em lugares públicos. O ideal é procurar envolvê-la com algo que possa distraí-la, sem que seja necessário chamar a atenção para o fato em si. Em crianças um pouco maiores – após os 6 anos – é possível ir introduzindo a noção do público e do privado. De que o problema não é o que está fazendo, mas onde e quando está fazendo. É importante ter tato e não se assustar. Saber lidar com a situação com naturalidade. Dessa maneira, indiretamente estaremos mandando a mensagem de que manipular seu próprio corpo e dele obter prazer não é algo reprovável, mas que devemos apenas saber o momento adequado para isso.

Nos encontramos no mês que vem!

Um forte abraço,

Ane Dantas Sartori

Psicóloga – CRP 05/39333