Sexualidade Parte III

Neste terceiro e último texto da série, gostaria de abordar tópicos referentes ao cotidiano da casa, aos hábitos familiares e a alguns sinais que irão nos alertar para possíveis problemas. Dessa forma,

O terceiro ponto no qual podemos nos deter dá conta das precauções que são importantes no dia a dia das crianças.

Uma questão importante é o dormir com os pais no mesmo quarto. Esse local é o espaço deles, onde tem – ou deveriam ter – a liberdade para vivenciarem seus momentos de casal (deixando um pouquinho de lado o papel de pai e mãe). Todo casal necessita desse tempo, cultivar o lado homem/mulher, pois ajudará a que esta relação seja cada vez mais saudável e isso certamente refletirá nos demais aspectos de suas vidas e nas demais relações – inclusive na de pais e filhos.  O problema é que muitas vezes isso acaba não acontecendo, ou seja, esse espaço do casal é divido com berço, fraldas, choros, mamadeiras e muita falta de privacidade. Aí, sobra muito pouco para o casal “brincar” entre si!

Mas como sabemos que há certas coisas que acabam “falando mais alto” em algumas ocasiões, é importante que os pais que vivem essa realidade de divisão de espaço tenham em mente uma situação que pode ocorrer na hora do sexo. Muitas vezes, pai e mãe acreditam que a criança está dormindo e não verá nada, nem tomará ciência do que está acontecendo e que se acordarem eles irão perceber na hora. Mas entregues ao momento, é fácil não se darem conta de que estão sendo observados por olhos atentos, porque a criança por vezes se desperta e se mantém em silêncio apenas observando sem que seja notada.

O problema de tudo isso é que para a criança, essas questões ainda carecem de maturidade para que sejam compreendidas, uma maturidade que ela ainda não possui. Com isso podemos ver que começará a reproduzir de alguma forma o que tem visto, pois aprende por modelos e usa as brincadeiras com bonecas ou com outros coleguinhas para internalizar essas aprendizagens que vai tendo do mundo que a rodeia. Além disso, se analisarmos numa perspectiva de quem está alheio ao significado do ato sexual, ele pode sugerir uma interpretação de que estão “machucando a mamãe” (ou o papai). Portanto, a falta de compreensão pode criar deturpações. O melhor é que cada um habite seu próprio espaço para que continuemos mantendo a questão do público e do privado de forma adequada.

Ao falarmos da questão do dormir em quartos separados, não podemos esquecer que uma grande parcela da sociedade não possui a oportunidade de ter esses ambientes tão separados assim. Mas dentro das possibilidades de espaço de cada família, é importante criar estratégias para solucionar o problema. É possível se utilizar de uma arrumação dos móveis em que os mesmos sirvam de delimitador, de “parede” para criar os ambientes individuais. E quando não seja viável essa situação, uma cortina pode dar conta do recado!

Agora é necessário voltarmos um pouco num aspecto – abordado no texto anterior – que remete aos meios de comunicação, para ressaltar que muitas vezes é a televisão que irá ocupar esse lugar, ou seja, a família faz tudo certinho, mas a tv mostra! Então, o trabalho dos pais em tornar tudo isso privado vai quase todo por água abaixo porque vem a televisão e torna tudo público. Por isso é tão importante poder escolher bem a programação dos filhos; saber ao que estamos expondo suas cabecinhas nesse momento de formação; adequar realmente a programação à faixa etária.

Para irmos delineando o final do nosso texto, não podemos deixar de pensar que alguns sinais que podem ser dados pela criança.

Sendo muito pequena, ela não tem noção de que os órgãos genitais “servem” para algo mais que fazer xixi! Ela já pode até saber que ele causa prazer ao ser tocado, como vimos no nosso primeiro texto, mas é um prazer solitário e sem fantasias. Quando posições são retratadas fielmente ou mesmo verbalizadas pela criança, é importante estarmos cientes de que ela viu ou vivenciou esta situação, senão não teria como trazer essas informações (lembremos que crianças aprendem por imitação – ou por vivências). Então, ter esses comportamentos nos mostra que de alguma forma ela está tendo contato com essa informação e aí precisamos verificar se é através da tv, de um amiguinho da mesma idade (exposto a essas informações), de um amiguinho um pouco mais velho ou mesmo de algum adulto ou adolescente.

Após identificar a fonte da informação inadequada, se são crianças pequenas é importante retirar o estímulo, afastá-las do modelo e dizer que não podem fazer isso; o importante é percebermos a inocência que a criança tem em relação ao que é realmente o sexo, e o que ele representa para o grupo social, pois na maioria das vezes vão reproduzir o que estão vendo, com uma irmã/irmão menor, com um coleguinha ou com bonecas; às vezes nem escondendo muito, mostrando que não tem noção do certo/errado nesse quesito. É pura imitação!

Se são maiorzinhas, tirar o estímulo também é o primeiro passo e o segundo é colocar que criança não faz isso e oportunizar a elas o aprendizado e a internalização dos valores do nosso grupo social (o que pode/não pode; certo/errado; o que ainda não pode). Dessa forma estamos trabalhando com o que a criança recebe de informação do meio. É importante sentar e conversar sobre o que é permitido no momento.

Se as informações que a criança tem vem de situações vivenciadas entre ela e um adulto ou adolescente, além de afastá-la dessa situação, procure os meios legais para saber como proceder nesses casos e procure uma avaliação de especialista na área da psicologia para que seja investigada a extensão dos danos psicológicos. O importante é que não nos esqueçamos que quando a criança vivencia isso com um adolescente ou adulto, a questão da inocência mencionada no parágrafo anterior (em relação a não saber o que está fazendo realmente) será apenas em relação à vítima, pois em relação ao abusador a consciência do que o ato significa é total. Outro aspecto relevante, é que se faz necessário ter muito cuidado com quem tem acesso às crianças, pois normalmente as questões relacionadas ao abuso acontecem com pessoas consideradas de confiança.

É de extrema necessidade que não achemos isso normal, ou que seja algo que vai passar e que o abusador não repetirá se tiver oportunidade. Talvez não repita com aquela criança específica por medo de ser descoberto (a), mas quem será a próxima vítima?! É necessário proteger as crianças contra esse tipo de abuso e ela conta apenas com vc!

Espero que tenham aproveitado essa série e no mês que vem teremos outro tema a ser abordado.

Até lá!

Um forte abraço,

Ane Dantas Sartori

Psicóloga – CRP05/39333