O Limite Parte III

Neste último texto da série, faremos nossa primeira “parada” na questão do limite como um minimizador de riscos, pois crianças que estão habituadas a ouvir e atender aos comandos de seus responsáveis podem, por esta razão, ser beneficiadas em certos momentos decisivos, já que há situações em que apenas a palavra é o meio pelo qual o adulto pode “detê-las”. Para ilustrar este ponto, lancemos mão do filme E o vento levou, um clássico americano de 1940.

Nesta história, Bonnie sempre foi uma criança que teve suas vontades realizadas, principalmente pelo pai que não admitia que ela fosse contrariada. Filha dos personagens Scarlett O’Hara e Capitão Rhett Butler, aos 5 anos, Bonnie crescia não sabendo obedecer a um não recebido, levando em consideração apenas o seu querer, acreditando que sua palavra era sempre uma ordem a ser cumprida. Em determinada ocasião, como era de costume, montou seu pônei, tendo seus pais como espectadores. A menina, já com certa desenvoltura, pulava obstáculos na pista e queria ser uma amazonas.

Mas justo naquele dia, Bonnie aumentou a altura do obstáculo que iria saltar, concluindo ela mesma – com sua avaliação infantil – que já estava apta para novos desafios. Na sequência, Bonnie informa aos pais que realizaria o novo salto e é alertada pelo pai para que não o fizesse porque ainda não havia treinado com aquela altura. Mas geniosa como era, fruto de uma educação sem limite, não obedeceu ao pai e mesmo assim saltou. Mas não houve tempo para que o Capitão, do lugar onde se encontrava, corresse e a impedisse de realizar o salto; pela distância, ele contava apenas com o poder de sua palavra.

O problema é que não havia construído uma relação de autoridade com a filha e o fato culminou na queda da garotinha, que pela altura do obstáculo se tornou fatal.

Com essa ilustração, é importante percebermos que o trabalho de construir essa autoridade junto aos filhos é essencial! Há diversas situações em que percebemos ser necessária a obediência dos filhos, pois nem sempre há tempo a perder com birras, teimosias etc. E se a criança está habituada a atender às regras, se sabe que quando um não lhe é dado este será mantido (pois os pais já trabalharam em si a questão do não fraco e do não forte), não existe motivos para que ela não atenda a solicitação feita pelos pais.

Nossa segunda “parada” será na diferença entre ter autoridade e ser autoritário. Grosso modo, o autoritário não leva em consideração os sentimentos, pensamentos, desejos e vontades do outro; ele quer comandar ao seu bel prazer. Um exemplo disso é aquele pai ou mãe que simplesmente não deixa os filhos irem a uma determinada festa porque não quer se preocupar, não quer ter trabalho, porque acha que não tem que ir simplesmente, sem nem refletir os motivos ou porque não se importa com a felicidade dos filhos, pois sair, se relacionar com o grupo, ter experiências, vivenciar o mundo que logo, logo terão que enfrentar sim ou sim, é uma necessidade desses seres em desenvolvimento. Como se diz no popular “Criamos filhos para o mundo!”. O autoritário trabalha com o medo; por isso não é respeitado e sim temido. Não há muita abertura para que os filhos procurem dialogar, pois a intransigência é uma característica desse tipo de responsável (pai ou mãe).

Já no exercício da paternidade com autoridade, os pais são vistos como pessoas confiáveis e abertas, pois dão espaço para o diálogo sem deixar de lado a hierarquia da relação. Não é ser “amiguinho” dos filhos, mas permitir que dentro dessa hierarquia também exista espaço para trocas; ouvindo, dando atenção aos sentimentos e pensamentos deles. E quando isso é feito desde cedo, já vai construindo com os pequenos um excelente caminho para a adolescência – momento onde o diálogo vai trazer muito mais segurança para os pais e filhos também.

Nossa terceira e última “parada” será num ponto que causa muitas controvérsias: a palmada! Será ela eficaz? Será um método que vale a pena investir? Se pararmos e analisarmos friamente a situação, saberemos que não é a palmada que “conserta” um indivíduo. O que realmente educa é a postura dos pais frente às situações e a disposição deles para educar. O limite que eles darão e que fará com que a criança comece a aprender a lidar com a frustração.

O bater, na realidade, tem duas principais motivações:

  1. falta de autoridade dos pais
  2. descarga de stress

A “descarga de tensão” não pode ser nos filhos; é preciso preparar-se para essa tarefa do educar, trabalhando a paciência, a perseverança e a autoridade. Todos sabem que não é a dor física que irá ensinar a uma criança que ela não pode conseguir as coisas com uma birra, por exemplo. Os pais que acostumam o filho a “obedecer” através da pancada criam uma lógica equivocada na cabeça dele e o fazem acreditar que só precisa obedecer apanhando; se não apanha não precisa obedecer! Sem contar todos os traumas que pode causar dependendo da frequência e magnitude desse bater.

Também estará contribuindo para que no futuro esse filho seja um adulto agressivo ou caia no outro extremo, sendo permissivo com seus futuros filhos (para que não sofram o que sofreu). Na verdade, o bater não dá o resultado esperado; o bater nunca ensina, ele apenas impõe o medo e este não é um agente educador, mas apenas limitador.

Os pais precisam desses momentos de reflexão para que identifiquem se sua prática está dando resultados positivos ou negativos. Avaliar e reformular suas atitudes quando estas não estiverem trazendo o resultado esperado, é a possibilidade de acerto.

Esperamos que essa série sobre o Limite possa ter ajudado a repensar a importância desta palavra mágica.

Ane Dantas Sartori Psicóloga – CRP 05/39333 anedantas@colegiosantabeatriz.com.br

Um forte abraço e até nosso próximo texto!